Como a Terra de Israel foi Inventada

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S. Sand

Como a Terra de Israel foi Inventada

Da Terra Santa à pátria-mãe

Em Como o Povo Judeu foi Inventado o autor analisou o mito supra-histórico da existência de um «povo judeu», apurando não haver denominador étnico, linguístico ou cultural comum às diversas comunidade de judeus. A religião não constitui um tal denominador. Houve quem contrapropusesse que o elo residia na «Terra de Israel», justificando a colonização sionista e a criação do Estado de Israel com base em razões como a terra dos antepassados, direitos históricos ou milenárias aspirações nacionais. Através da presente obra o autor responde.

Nos termos da Bíblia, o povo é estrangeiro e o que lhe foi prometido — na condição de não pecar — foi a «Terra de Canaã», não «de Israel». A Terra de Israel, só abrange o território do reino setentrional de Israel, não incluindo Jerusalém, Belém ou Hebron. Abraão nasceu na Mesopotâmia, não se demorou na dita terra, imigrou para o Egito. Moisés nasceu no Egito e ali juntou o povo que encaminhará para a Terra Prometida. As revoltas dos Asmoneus e dos Zelotas, de Bar-Kochba e o suicídio colectivo de Massada não ocorreram na Terra de Israel, mas mais a sul. O grande «exílio» do séc. I, responsável por levar o povo até às portas de Moscovo, não tem o mínimo fundamento histórico. Terra Santa e expressões similares constituem tardias invenções cristãs e rabínicas, com sentido religioso e não geográfico. Durante milénios as grandes figuras do judaísmo encararam Jerusalém como o metafísico lugar da redenção messiânica, não um destino terrestre. Fílon de Alexandria, Flávio Josefo de Roma, os sábios do Talmude da Babilónia, Saadia Gaon da Mesopotâmia, Maimónides do Egito, dezenas de milhares de outros rabinos e simples judeus sempre preferiram o lugar onde cresceram, trabalharam, viveram e cuja língua falaram. É assim que no final do século XVIII habitavam na Palestina menos de 5.000 judeus entre 250.000 árabes, muçulmanos e cristãos.

Entretanto, em 1881, têm início os grandes pogroms na Europa oriental. Até 1918, 2,5 milhões de judeus abandonam o Império Russo, rumando à Europa central, ocidental, EUA e dando um fundamental impulso ao desenvolvimento dos sionismos alemão e britânico. Na Alemanha, Theodor Herzl desenvolve a ideia de que também os judeus eram um povo e ansiavam pelo seu Estado. Ideia bizarra que mereceu pronto e amplo repúdio do judaísmo rabínico. Na Grã-Bretanha, lorde Balfour expressa a simpatia do Governo em relação à constituição na Palestina de um «lar nacional» para o povo judaico (onde residiam 60.000 judeus), sem prejuízo dos direitos dos não-judeus (700.000 árabes). Daí a pouco a Grã-Bretanha passará a governar a Palestina, na qualidade de potência Mandatária.

Se os judeus do Talmude sentiam um temor extremo ao pensar na leitura direta do livro de Deus, já os protestantes ingleses leram a Bíblia sem comentários nem mediadores. Para os rabinos a reunião dos judeus, tanto vivos como mortos, só poderia chegar com a redenção. Já os cristãos milenaristas não viam nenhum obstáculo teológico à emigração dos judeus para a Terra Santa, só vantagens, livrando-se dos judeus e apressando a salvação, que na sua perspectiva também incluía a sua conversão.

Na primeira metade do século XX, a maioria dos judeus, ortodoxos, liberais reformistas, bundistas sociais-democratas, socialistas e anarquistas, não vislumbravam a Palestina como a sua terra, pelo que não consideraram para aí encaminhar-se. Os terríveis golpes que se abateram sobre os judeus e o encerramento das fronteiras do «mundo esclarecido», mudaram este estado de espírito, impulsionaram a colonização judaica da Palestina e a criação do Estado de Israel.

A custo de muitos anacronismos e manipulações semânticas a terra tornar-se-á na «Terra de Israel» dos grandes nomes do movimento sionista, que sabiam que os autóctones eram muitos e a eles por vezes se referiram. Mas tal presença não era impeditiva da colonização, já que na sua perspectiva ocidental o mundo não-europeu era um espaço vazio de presença humana relevante.

Para Shlomo Sand, os judeus não dispõem de qualquer prioridade «histórica» sobre a terra que o Estado de Israel hoje domina; não aceita a conversão da certidão de nascimento da primitiva religião judaica em título dourado de propriedade nacional, a expensas dos autóctones. O autor encara Israel como fait accompli, mas reclama a transformação do Estado judaico num Estado de todos os seus cidadãos, independentemente das etnias ou religiões.

Shlomo Sand

S. SAND (n.1946) é historiador e Professor Emérito da Universidade de Telavive, onde lecionou História Contemporânea. Filho de pais polacos, de cultura iídiche e sobreviventes do Holocausto, passou os dois primeiros anos de vida num «campo para pessoas deslocadas» antes da família emigrar para Israel, onde efetuou o serviço militar obrigatório e combateu na Guerra dos Seis Dias (1967), experiência de que dá conta neste livro. Doutorou-se em 1982 pela École de hautes études en sciences sociales, em Paris. A sua investigação tem incidido sobre a história cultural moderna, o movimento sionista e a construção de Israel. Com tradução em 30 países, Como o Povo Judeu foi Inventado (2008), a presente obra (2012) e Como Deixei de ser Judeu (2013) propiciam-lhe projeção mundial. É ainda autor de Le XXe siècle à l’écran (2002), dedicado ao cinema. Mais recentemente publicou Une Race imaginaire (2020), descrevendo o processo de racialização dos judeus, decorrendo entre a Europa judeófoba e o Israel nacionalista, denunciando em ambos os casos a fobia em relação ao «outro», que já foi judeu e com inquietante frequência tende agora a ser árabe.