Na sua recensão aos Escritos Judaicos de Hannah Arendt, Judith Butler escrutina os modos de pertença e de rejeição próprios da existência, religião e história judaica, que ao longo dos anos suscitarão tomadas de posição por parte de Arendt, em particular os paradoxos políticos subjacentes à criação do Estado-nação de Israel.

Esboçam-se assim as linhas essenciais do pensamento arendtiano dedicadas ao problema dos judeus do pós-guerra, ao analisar-se o contexto histórico e político que originou a judeofobia e o Holocausto na Europa, mas também a contraposição crítica em relação ao destino das minorias ou a interpretação da «banalidade do mal» em chave jurídica e política.

Na sua leitura dos Escritos Judaicos, Judith Butler observa as contradições, as incertezas e divergências, relativamente à condição de «ser judeu», sublinhando a posição de Arendt – judia da diáspora – face à distinção dogmática entre assimilacionismo e sionismo. Perante a crítica de Gershom Scholem a Arendt, a respeito do seu suposto «desamor» em relação aos judeus, evidencia-se a autonomia do seu pensamento em relação a um debate que escolheu a noção de «povo judaico» como premissa e álibi da judeofobia. Arendt reconhece ser judia «simplesmente», declarando-se crítica do nacionalismo judaico, fundado numa pretensa secularidade, bem como refutando a política fundada em motivos religiosos. Alerta-se para o pernicioso e perigoso clamor do nacionalismo, subjacente à adopção da perspectiva de uma pertença nacional judaica.

As oposições que o pensamento de Arendt atravessa – a sua pertença judaica, a sua crítica ao nacionalismo, entre outras – conferem uma notável atualidade aos seus escritos.

Judith Butler

J. BUTLER (n.1956), filósofa, e uma das importantes pensadoras do feminismo e da teoria queer, é professora do Departamento de Retórica e Literatura Comparada da Universidade da Califórnia em Berkeley. A partir de 1988 dedicou a sua investigação em torno da performatividade e dos problemas de género. Militante e activista LGBTQ, publicou livros fundamentais sobre os limites discursivos do «sexo» integrando na sua análise a intercessão crítica de autores como Sigmund Freud, Simone de Beauvoir, Julia Kristeva, Jacques Lacan, Luce Irigaray, Jacques Derrida e Michel Foucault. A vasta recepção da sua obra, onde se contam títulos como Gender Troubles (1990; Problemas de Género); Bodies that Matter (1993; Corpos que Importam) tem contribuído para o desenvolvimento dos estudos culturais no campo da psicanálise, da literatura e do cinema. Com Precarious Life, The Powers of Mourning and violence (2004) inaugura a vertente de filosofia política que se irá centrar, mais recentemente, na filosofia judaica e, em especial, nas críticas pré-sionistas e sionistas da violência estatal, em Parting Ways (2013; Caminhos Divergentes). Em 2012, é agraciada com o Prémio Theodor W. Adorno da cidade de Frankfurt-am-Main.