Neste ensaio, dá-se conta da transformação que, nas últimas cinco décadas, ocorreu no campo da história do Levante, a qual tem vindo a deslocar-se de uma história do Israel Antigo para uma história da Palestina Antiga. A principal questão é constituída pelo estatuto do Antigo Testamento como fonte histórica ou narrativa mítico-religiosa, e pela sua maior ou menor relevância para uma história do Levante. Duas possibilidades historiográficas têm vindo a desenvolver-se. Nos Estados Unidos, em círculos com influência evangélica, continua a produzir uma historiografia a partir do esquema narrativo apresentado pelo Antigo Testamento e, consequentemente, focada na história do Antigo Israel. Neste caso, procura-se o ajuste entre dados arqueológicos e a narrativa mítico-bíblica. Na Europa, em particular no eixo Copenhaga-Sheffield, a história constroi-se com base nos registos arqueológicos e epigráfico, e em contributos de disciplinas tais como a antropologia, etnografia, demografia histórica ou climatologia. Prossegue-se, assim, uma investigação histórico-crítica independente da versão bíblica do passado de Israel, uma vez que – deliberada e necessariamente – se desenvolve para além do horizonte ditado e delimitado pela narrativa bíblica. Esta é uma história dos diversos povos que ao longo dos tempos se cruzaram e desenvolveram na Palestina Antiga, da transformação das condições materiais, sociais e intelectuais, não se centrando nem cingindo aos protagonistas e eventos das estórias bíblicas.

Emanuel Pfoh

E. PFOH é historiador, professor no Departamento de História da Universidade Nacional de La Plata, Buenos Aires, Argentina, e investigador do Conselho Nacional de Investigação Científica e Técnica (CONICET). É co-editor dos Copenhagen International Seminar Series, das edições Routledge. Tem desenvolvido a sua actividade de investigação no âmbito da história e da antropologia do Levante na Antiguidade. No seu vasto leque de artigos e livros publicados, os objectos de estudo e as suas diferentes abordagens abrangem o campo da epistemologia da escrita da história e das fontes textuais, em particular dos textos bíblicos, mas também a área da antropologia histórica da Palestina na Idade do Ferro e os antecedentes ideológicos, políticos e sociais da historiografia moderna e contemporânea de Palestina/Israel Antigo. Designadamente, é autor de The Emergence of Israel in Ancient Palestine. Historical and Anthropological Perspectives (Routledge, 2016), Syria-Palestine in The Late Bronze Age. An Anthropology of Politics and Power (Routledge, 2016). Editou ainda Anthropology and the Bible (Gorgias, 2010) e co-editou The Politics of Israel’s Past. The Bible, Archaeology and Nation-Building (Sheffield Phoenix Press, 2013). Disponibiliza uma ampla amostra dos seus estudos através da sua página na plataforma Academia.edu.

Como domínio historiográfico autónomo, a história da Palestina Antiga tem uma existência muito recente. Apesar de existirem, ao longo de mais de um século, notáveis antecedentes deste campo de estudos, em regra estes surgem no quadro de uma história geral do Médio Oriente Antigo, como uma introdução à história do Israel Antigo; esta é uma historiografia frequentemente subordinada aos interesses Ocidentais em relação às suas origens bíblicas.

É em finais do século XX, no âmbito do debate sobre a historicidade das narrativas bíblicas no seio dos estudos bíblicos, que a Palestina Antiga surge como objecto de interesse historiográfico. Este processo enquadra-se nos progressos críticos ocorridos na epistemologia das ciências humanas, incluindo os estudos históricos, e não é estranho aos processos políticos em curso no Médio Oriente. Para compreender, então, como é que a história da Palestina Antiga se está a constituir como historiografia autónoma e qual a sua relação com o conflito israelo-palestino, procura-se com este ensaio, em primeiro lugar, passar em revista as mudanças fundamentais que tiveram lugar ao longo dos últimos quarenta anos no âmbito dos Estudos Bíblicos relativos à história de Israel e, a partir daqui, expor as relações entre o passado e a política no que diz respeito à prática arqueológica e à história da Antiguidade em Israel/Palestina.

Emanuel Pfoh

E. PFOH é historiador, professor no Departamento de História da Universidade Nacional de La Plata, Buenos Aires, Argentina, e investigador do Conselho Nacional de Investigação Científica e Técnica (CONICET). É co-editor dos Copenhagen International Seminar Series, das edições Routledge. Tem desenvolvido a sua actividade de investigação no âmbito da história e da antropologia do Levante na Antiguidade. No seu vasto leque de artigos e livros publicados, os objectos de estudo e as suas diferentes abordagens abrangem o campo da epistemologia da escrita da história e das fontes textuais, em particular dos textos bíblicos, mas também a área da antropologia histórica da Palestina na Idade do Ferro e os antecedentes ideológicos, políticos e sociais da historiografia moderna e contemporânea de Palestina/Israel Antigo. Designadamente, é autor de The Emergence of Israel in Ancient Palestine. Historical and Anthropological Perspectives (Routledge, 2016), Syria-Palestine in The Late Bronze Age. An Anthropology of Politics and Power (Routledge, 2016). Editou ainda Anthropology and the Bible (Gorgias, 2010) e co-editou The Politics of Israel’s Past. The Bible, Archaeology and Nation-Building (Sheffield Phoenix Press, 2013). Disponibiliza uma ampla amostra dos seus estudos através da sua página na plataforma Academia.edu.